Senhoras e Senhoras, com vocês, Rubens Lisboa!

  • Antônia Amorosa

Os títulos deveriam ser sucintos, eu sei. Mas quando uma alma se abrasa no encantamento, tudo é perdoável quando justo. Pois bem: o cantor e compositor Rubens Lisboa, sergipano nascido no calor deste torrão, nos presenteia com uma das mais belas coleções musicais já produzidas por um artista sergipano. Traz um importante diferencial neste novo projeto – a presença de vozes advindas de outras plagas a cantar as coisas da gente. De um compositor que transita por nossas ruas, que cresceu ao nosso lado e que é sergipano de nascimento. Orgulho é pouco.
Ao mesmo tempo esta obra vem consolidar um importante conceito, o da importância da presença de um intérprete diante de uma obra musical que merece muito mais.
Rubens Lisboa é um compositor plural. Ele transita na diversidade de ritmos e sons que o caracteriza como um elaborador de palavras e sonoridades absorvidas na influência da ciranda, do samba, do forró, do blues, do rock e das infinitas possibilidades musicais.
O que torna Rubens Lisboa como um dos mais importantes compositores existentes na história da música sergipana é o conjunto da sua obra. Para que se conheça a sua capacidade criativa é preciso buscar tempo para ouvir canção por canção, o desenrolar do sentimento e da visão de um pensador que utiliza, em suas frases poéticas, textos cotidianos que identifica o outro na sua construção.
A coleção lançada pelo selo Discobertas – “Rubens Lisboa por Tantas Vozes” – irá representar um marco na história da música sergipana no contexto da música brasileira, insisto.
Trata-se de três CDS que trazem intérpretes do quilate de Leila Pinheiro, Vânia Bastos, Amelinha, Rita Ribeiro, Zé Renato, Elza Soares, Cida Moreira, Tetê Espíndola, Chico César, Selma Reis, Daniel Gonzaga, além de gratas surpresas que vêm consolidar que o Brasil não conhece o Brasil na imensidão dos seus talentos musicais. Uma obra para ser ouvida durante uma vida.
A ousadia de Rubens Lisboa, sua visão macro, além do seu compromisso pessoal com sua obra registra em nossa aldeia um marco cultural que merece ser apreciado por todos.
Difícil enumerar quais as melhores músicas dentre as 45 canções que foram interpretadas por diversos convidados especiais.
A criação textual do compositor Rubens Lisboa transita pela malandragem do samba carioca, pela pegada sutil das frases de efeito ditas no dia a dia, pela base nordestina que foi criada no sutil poema de um pensador que está atento ao seu tempo e a tudo que o atrai ao derredor, além de pontuar-se numa perspectiva moderna e atual.
Nos três CDs há uma variedade de ritmos que passam pela ciranda na voz de Leila Pinheiro, belíssimos sambas com Ana Costa, Grupo Arranco de Varsóvia, Eduarda Fadini, Fred Martins, além da interpretação impagável de Elza Soares, o transitar entre o samba e a bossa com Carlos Navas, o romantismo na interpretação de Antônio Villeroy, Eliana Printes (detentora de uma bela voz), Izabel Padovani, o singular Zé Renato, além de Eugenio Dale, a encantadora Tetê Espíndola, a bela interpretação de Alaíde Costa, sem contar Di Mostacatto e a presença sonora de Selma Reis, sempre emocionante. Mas a coleção não se prende apenas a estes ritmos. A veia nordestina está presente na linda voz de Chico César, Amelinha, Jarbas Mariz, Mariana Baltar (dando uma nova roupagem à canção “Incendiado” que gravei em meu segundo CD), além de três belíssimos arranjos nas vozes de Daniel Gonzaga, Anna Ratto e Ana Salvagni onde cada um estreia uma nova canção “Rubeniana”.
De “Meu Choro” com Ná Ozzetti à belíssima interpretação da música “Felicidade” na voz de Kleber Albuquerque, a obra de Rubens vem nos presentear com talentos surpreendentes.
Edu Krieger e Ortinho trazem o tom dos carnavais onde o belo predomina na elaboração melódica do compositor. Com arranjos modernos, gratas surpresas desfilam igualmente nas vozes de Verônica Ferriani, Ithamara Koorax, Rodrigo Bittencourt, Rogéria Holtz, Tânia Bicalho, Wado, Vânia Bastos, Rita Ribeiro, Fênix, Cris Aflalo, Selma Gillet e Sílvia Machete, os quais ofertam uma valiosa contribuição para a consagração da obra de Rubens Lisboa no cenário da música brasileira. Sem contar o ritmo frenético a nos remeter à sonoridade do afoxé com Fabiana Cozza, Marcia Castro e Clarice Magalhães, sempre com toques que diferenciam do convencional. Sem qualquer preconceito, Zéu Britto e Cida Moreira dão o tom de um brega bem interpretado com a devida elegância, trazendo o apimentado sabor do compositor em brincar com tudo que seja pudor ou preconceito. Já na interpretação de Vange Milliet em “Canto pra Jurema” remeti-me a lembranças das interpretações geniais de Elis Regina.
Em suma, a coleção “Rubens Lisboa por Tantas Vozes” é um tratado da música sergipana que testifica a personalidade de um estilo plural que credencia as canções a fazerem parte das composições primorosas da nossa MPB.
Esta coleção merece ser ouvida por todos os músicos e filhos sergipanos que amam verdadeiramente as coisas de Sergipe. Será uma massagem no ego, um orgulho bendito, uma realização em termos no nosso discotecário particular, belíssimas canções que cresceram consideravelmente nas vozes escolhidas pelo autor.
Movido pela curiosidade ou não, indico ao leitor que não deixe de ouvir este primor da música popular brasileira que podemos chamar de nossa. No mais, volto a ouvir “Felicidade” porque aquilo que é bom tem que ser ouvido muitas vezes.
Quanto ao acesso a esta obra, em breve chegará para todos. Tive o privilégio de ser uma das primeiras a ouvir e preferi escrever no êxtase em que ainda me encontro, saboreando um banquete digno de todos os aplausos.

  • Cantora e jornalista
Rubens Lisboa