Estratégia de autor sergipano vira caixa de 3 CDs

RIO - Se a regra hoje é o compositor gravar as próprias músicas e jogá-las na internet para ver o que acontece, o sergipano Rubens Lisboa está na contramão. Tendo quatro discos lançados em seu Estado, ele decidiu entregar canções, por e-mail ou pessoalmente, a intérpretes de seu agrado, sonhando que 14 concordassem em participar de um CD. — Qual não foi minha surpresa ao receber 45 respostas positivas? — ainda se espanta ele, que iniciou a empreitada em 2009 e agora lança a caixa de três CDs "Rubens Lisboa por tantas vozes" (R$ 30,00) pelo selo Discobertas, de Marcelo Fróes.
Lisboa não pagou cachê a nenhum dos artistas. Apenas reembolsou os custos de estúdio — quando eles não tinham os próprios — e o pagamento dos músicos participantes. Como foi fazendo os depósitos aos poucos ao longo de dois anos, garante não saber calcular o custo de sua ideia, mas informa não que tem nada de rico: é funcionário concursado do Tribunal Regional Eleitoral de Sergipe.
— Quero poder viver de música. Até gosto de como eu canto, mas acho que tenho mais a dizer como compositor — afirma ele, de 45 anos.
Retribuição a blog
Parece que os participantes da caixa concordam. Afinal, não foi pelo dinheiro que intérpretes experientes como Elza Soares, Leila Pinheiro, Zé Renato, Amelinha, Cida Moreira e Chico César ou mais jovens como Verônica Ferriani, Silvia Machete, Rodrigo Bittencourt, Fabiana Cozza, Ana Costa e Clarice Magalhães aceitaram gravar.
— Eu gostei imensamente da ciranda ("Ciranda do amor") e me entusiasmei com o entusiasmo dele — diz Leila, que começou a carreira em Belém e diz saber das dificuldades para se chegar a Rio e São Paulo.
Há artistas que assumem ter concordado em gravar como, em parte, uma espécie de retribuição. Lisboa mantém há cinco anos um blog, o Musiqualidade, em que fala de CDs de que gosta. O carioca Edu Krieger é um dos que conheceram primeiro o blogueiro e só depois o compositor.
— Se eu não tivesse gostado do que ele me mandou, teria saído pela tangente. Sempre há uma forma de se recusar um convite com elegância. Mas a música tem tudo a ver com o meu universo — diz Krieger, que gravou a marchinha "Não me leve a mal".
Carlos Navas é outro que se aproximou de Lisboa em função do blog. "Arteiro", o último CD do sergipano, é dedicado a ele e a Ithamara Koorax — que também está na caixa. O cantor paulista foi o primeiro a gravar ("O Um") e ainda produziu as faixas com as experientes Alaíde Costa, Tetê Espíndola e Vânia Bastos.
— Dentro do pouquíssimo que posso fazer, quero que mais gente o ouça, que ele seja gravado por outros colegas e se apresente no eixo Rio-São Paulo. É um artista que o Brasil precisa conhecer! — exalta Navas.
Além da qualidade do repertório, as canções de Lisboa também são diversificadas. Há samba, frevo, rock, blues e outros gêneros.
— É sobre essa pluralidade que eu quero construir minha carreira — diz.
A caixa ainda poderia ser maior: ele enviou músicas para 48 pessoas, mas uma não respondeu e duas toparam, mas não foram liberadas por gravadoras. Falta agora o sonho maior: ter uma canção interpretada por Maria Bethânia.

Rubens Lisboa